LUANDA BEIRA BAHIA. CELEBRANDO ADONIAS FILHO

 

Olívia Barradas - UFRJ

 

Viagens, caixas mágicas de promessas sonhadoras, não entregareis vossos tesouros intactos...

(Levi-Strauss. Tristes tropiques. Paris, l963)

 

Homens do mar! Ó rudes marinheiros

Tostados pelo sol dos quatro mundos!

Crianças que a procela acalentara

No berço destes pélagos profundos!

(Castro Alves. Navio negreiro. Tragédia no mar. Salvador, UFBA, 1979: 8)

 

Nas raízes da Cidade da Bahia estão a magia e o amor, sobre eles construíram-se as casas, moldou-se a vida do povo.

(Amado, Jorge. In. Draeger, Alain & Amado Jorge. Terra mágica da Bahia.1984: 8)

 

Mais de uma vez escrevi ser a Africa o nosso umbigo. Como sensibilidade, maneira de ver a vida e o mundo, forma de reagir aos acontecimentos, de viver e de conviver, de pensar e agir, somos pelo menos tão africanos quanto ibéricos. Definitiva foi a contribuição africana à formação da nossa cultura nacional. (...) Esplêndida cidade, noiva do mar, senhora do mistério e da beleza. Neste mar habita Iemanjá, a dos cinco nomes (...) O mágico encanto da cidade te envolverá, darás teu coração para jamais; jamais poderás esquecer a Bahia, o óleo de sua beleza densa te banhou, sua realidade encantada te perturbou para sempre. (Ibidem: 70).

 

1. Introdução

 

                Comemorando os trinta anos de Luanda Beira Bahia (1971), romance de Adonias Filho, é pertinente uma releitura deste texto cujos personagens procedem de uma miscigenação de índio, português e africano, raças primeiras que constituíram a base do povo brasileiro. Ao renovar a tradição, a obra em foco, à semelhança de uma literatura de viagem – tema recorrente na narrativa portuguesa,– constitui também uma expressão romanesca tendo o mar como leit-motiv articulador, vertente utilizada igualmente por Jorge Amado em Mar morto, Josué Montello em Cais da Sagração e Vasconcelos Maia no conto “Cação de areia”.

            Convidado para participar do Congresso das Comunidades de Cultura Portuguesa pelo Governo daquele País, em 1967, Adonias empreendeu uma viagem, atravessando os mares do Atlântico e do Indico, no navio Príncipe Perfeito, chegando a Luanda, cidade portuária de Angola, e a Beira, em Moçambique, ocasião em que recolheu o conteúdo mítico-simbólico daquelas localidades para posteriores produções, e, ao mesmo tempo, registrando dados documentais da vida dos aludidos países lusófonos. E desta fértil coleta produziu um dos mais significativos romances, Luanda Beira Bahia, em que os fundamentos da tragédia grega – uma das marcas mais obsessivas de sua escrita – inscrevem-se, amalgamando no horizonte do novo culturas enlaçadas em diálogo, sinalizando, assim, para a tensa relação entre a identidade e alteridade da cultura brasileira. Foi, pois, o conhecimento empírico da realidade, auferido através dessa visita que lhe despertou o interesse para construir este romance.É o documentário a serviço da literatura, é a vida dando subsídios à criação.

            Aliás, esta é a tese central da ficção de Adonias, conforme já explicitara no livro O romance de 30, onde ele diz que sua literatura se serve de uma espécie de documento, a fim de colaborar na compreensão do país e da sua gente:

 

É o universo brasileiro que se mostra em quadro e imagem, problema e drama, linguagem e passagem, ficcionalmente se movendo no poder de uma temática que oferece, com os mitos e símbolos, o caráter nacional e a personalidade do povo”. (Adonias Filho. 1969: 12).

 

            Na verdade, toda a obra deste consagrado autor baiano monta um amplo painel de brasilidade, painel que, no entanto, se vai abrindo para a amplidão do universal. Após a chamada Trilogia do Cacau – Servos da morte (1946), Memórias de Lázaro (1952) e Corpo vivo (1962) – onde a ação se passa na zona do cacau, sertão do sul da Bahia, e O forte (1965), situado em Salvador, Adonias amplia, na obra em estudo, os limites do espaço romanesco e desloca o foco narrativo para a vida à beira-mar, interligando o Brasil (Ilhéus e Salvador) à África (Beira e Luanda), ao evidenciar as afinidades raciais e culturais daqueles povos.

            Já o título sonoro, triádico, poético, ritmado de Luanda Beira Bahia (o qual citaremos só pelo número da página)congrega por meio de três topônimos dois continentes, três cidades do mundo lusófono, roteiro daquela viagem de Adonias Filho, no nível do real, recriando, através da ficção, a história dos personagens João Joanes, que, na África, passou a chamar-se Vicar, e Caúla, seu filho, e as conseqüentes idas e vindas deste da Bahia para a Beira e Luanda e de lá para o início do périplo, impelidos os dois, pela atração do mar e pelo fatalismo, a viverem uma trágica história de amor.

            A composição inicia-se com uma cena de inauguralidade de tons míticos, pontuando o início da miscigenação em Ilhéus, um paraíso primitivo antes da construção do porto, e anunciando, desde modo, o horizonte em que a efabulação edênica se vai desenvolver. Em tal passo, há um narrador – à semelhança de uma voz da oralidade, com os titubeios peculiares de um velho contador das tradições arcaicas – informando o leitor de que se trata de um tempo sem tempo, como se constata pelas assertivas: “Idade impossível de saber-se”, seguido de um “talvez cem ou duzentos anos, teria visto a praia ainda selvagem, o Pontal com três choupanas e Ilhéus sem o porto” (p.3), imagens embaçadas que se vão levantando das névoas da memória. Aí se construiu a casa primeira dos personagens, célula matricial entre a floresta e o mar, quando a praia ainda era “selvagem”, marcando o estágio da Natureza, na concepção de Lévi-Strauss, e o tempo mítico, por excelência, quando as “três choupanas” se erguiam. Também já no começo do texto figura o número três, tão comum nas tríades cosmológicas, ratificando ainda mais o caráter da primitiva idade atemporal.

            Logo em seguida, em outra dicção, portanto, fora do contexto da oralidade sagrada dos narradores ancestrais, surge, propriamente, a história dos personagens daquela saga familiar. Porém, esta já se inicia narrada no meio dos acontecimentos, ou seja, “in media res”, relembrando, por tal artifício narrativo, uma das características dos relatos épicos, à maneira de Camões, em Os Lusíadas, e de Bento Teixeira, na Prosopopéia. São os traços distintivos do épico antigo entrançando-se no romance moderno, no qual o narrador lendário do início de Luanda Beira Bahia também se funde, misturando, assim, criativamente, gêneros e estilos, aliás, uma das tônicas da escrita da modernidade.

            Algumas pinceladas já tendo sido dadas sobre a construção do livro em estudo, as quais serão verticalizadas no desenvolvimento deste trabalho, parte de um outro de maior extensão, convém que se determine a hipótese de base escolhida para a sua leitura. Observando a recorrência, a repetição dos temas e a redundância de figuras que revestem os temas, traços semânticos que constituem o que se chama isotopia, optou-se por uma descrição do texto sob este enfoque.

               

2.1 Paráfrase da obra

 

            Em virtude das múltiplas peripécias que se apresentam na fábula – composta num ir-e-vir através de “flashes-back”, aglutinando tempos e espaços que se cruzam, se gestam e se completam –, necessário primeiro se faz, ainda que de maneira sucinta, uma paráfrase da história dos personagens para a melhor compreensão do romance.

            João Joanes deixa Morena, sua mulher, em Ilhéus e o filho Caúla, sob a guarda de seu amigo Pé-de-Vento e parte para Salvador, prometendo voltar. Cansada de procurá-lo e esperá-lo, durante dez anos, morre. Numa tentativa para evitar sua ida também para o mar, partida similar à do pai, Caúla foi trabalhar de sapateiro, emprego arranjado por Pé-de-Vento.

            Depois da morte de Morena, sua mãe, ele decide ir com Mestre Vitorino para Salvador. Lá, vem a saber que seu pai, João Joanes tinha sido envolvido com o tráfico de diamantes, em decorrência de haverem colocado furtivamente um saco deste material precioso na sua bagagem. Com a polícia a querer prendê-lo, viu-se obrigado a fugir para a África no cargueiro de Lopo Quintas por intermédio da Mãe Filomena, uma traidora, sem saber que seria liqüidado antes de chegar a Luanda. Na viagem, é avisado pelo companheiro Gando, nativo da Ilha de São Tomé. Este lhe sugere fugir quando descessem para reabastecimento naquela Ilha. De lá, seguem para para Luanda onde conhece Corina Mulele com quem tem uma filha, Iuta e, de novo, o marinheiro desaparece. A mulher morre de febre.

Numa trama paralela, em Ilhéus, Caúla havia conhecido rapidamente Alice que trabalhava no mundo maravilhoso do circo, deixando-lhe na mente um amor platônico. Em Salvador, com Conceição do Carmo, neta da Mãe Filomena, tem sua primeira relação sexual e apaixona-se por ela. Ao retornar de Ilhéus, a encontra com outro homem na cama. Desesperado, tomado por paixão, decide ir para mais longe, no Bailundo, cargueiro que trafegava para a África. Em Beira, ama Maria do Mar banhada pelas águas do oceano. Em Luanda, encontra Iuta, muito semelhante a ele e dessa união ela engravida que, por sua vez, era protegida por José Babino, salvo das águas por Vicar, pai da moça. O texto mostra que os brancos eram homens de passagem: uniam-se às mulheres e, em seguida, abandonavam-nas com os filhos. Com a morte de José Babino, Caúla e sua mulher resolvem vir para Ilhéus.

            Ao chegar a sua casa, no Pontal de Ilhéus, Caúla e Iuta encontram João Joanes que, em Luanda, adotara o nome de Vicar. Os jovens descobrem ser aquele homem o pai de ambos. Diante do amor incestuoso dos próprios filhos, João Joanes/Vicar atira neles e também se mata. Péde-Vento é chamado e corta a jindiba, árvore-testemunha da vida desta família, e com ela fez três caixões.

 

2.2 Os blocos do romance

 

            O romance é constituído de dois blocos: I e II. O bloco I engloba seis partes (seis é múltipo de três) e o bloco II, apenas possui uma parte.

            A primeira parte do bloco I contém seis momentos, a segunda parte, cinco – algarismo mítico que representa o Homem, pois, no simbolismo dos números, o cinco corresponde à “quintessência” dos alquimistas, agindo sobre os quatro elementos da matéria: ar, água, fogo e terra. Já a terceira parte do romance é constituída de doze momentos, a quarta, de seis, a quinta, novamente de cinco e a sexta, de oito que é igual a cinco, mais três. Como se depreende, o três e o cinco partilham significativamente da estruturação desta obra.

            No bloco I, há o prólogo-síntese, a “back-story”, ou seja, o espaço introdutório, escrito num tempo anterior ao início da história, no compasso da já aludida ambiência primitiva, onde são anunciados os dois protagonistas, ainda sem nome, o pai sardento e o filho que sentia amor pela jindiba, a árvore que os precedeu “tão forte e bela quanto o mar” (p.4).

            O Bloco II, curto, composto de apenas uma única parte, traz o epílogo.

            A fim de visualizarmos as partes do romance, sintetizando a trama, teríamos o seguinte quadro:

 

Bloco 1:

Back-story

1ª parte

2ª parte

3ª parte

4ª parte

5ª parte

6ª parte

João Joanes

 

 

Luanda

 

(São Tomé)

 

Vicar

 

 

Vicar parte de Luanda

 

Luanda

 

João Joanes/

Vicar e Caúla no Pontal, em Ilhéus

 

 

 

 

 

no Pontal, em Ilhéus

Caúla, no Pontal, em Ilhéus

Pontal/

Salvador

 

 

Salvador/Pontal

Pontal/

Salvador, Beira

Beira/Luanda/ Salvador/

Pontal, Ilhéus

 

 

A partir desta estruturação tão bem projetada pelo autor, constata-se que Adonias Filho é um exímio arquiteto e engenheiro da narrativa. Na primeira parte, na terceira e na metade da quinta, a ação se passa no Brasil, em Ilhéus e em Salvador, tendo por protagonistas João Joanes e Caúla. Na segunda metade da quinta parte, a história transcorre em Beira. Na segunda, quarta e sexta partes, em Luanda.

            Observando a quinta e a sexta partes, verifica-se um quiasma: A quinta: No Brasil, de Ilhéus para Salvador e de Salvador para a Beira, na África. A sexta, o retorno,na África, da Beira para Luanda e de Luanda para Salvador e de Salvador para Ilhéus, no Brasil, conforme o gráfico abaixo:

 

 

5ª parte: Ilhéus ––––––––– Salvador –––––––––– Beira

 

X

 

6ª parte: Beira –––– Luanda –––– Salvador –––––––– Ilhéus

 

 

                Toda a reconstituição desta saga familiar faz-se em “flash-back” pela fala de outros personagens, ao passo que a história de Caúla É contada pelo narrador em meio a diálogos reproduzidos.

 

3. As isotopias

 

            Utilizou-se o conceito de isotopia, introduzido por Algirdas-Julien Greimas, no plano do conteúdo (GREIMAS, 1966) e, acréscimo teórico proposto por François Rastier (1972), no plano da expressão. Como se constata, este termo provocou discussões em meio a linguistas e a semioticistas, sendo gradativamente ampliado. De caráter operatório, inicialmente isotopia foi definida como iteração de uma unidade lingüística qualquer, ou melhor, ao longo da cadeia sintagmática, de classemas (semas atualizados por um contexto verbal particular), iteração esta suscetível de assegurar a homogeneidade semântica do discurso enunciado.

            Exemplos de categorias classemáticas maiores:

 

animado

 VS

inanimado

humano

              animal

material

imaterial

masculino

feminino

macho

fêmea

 

 

 

Entenda-se, pois, iteratividade como a reprodução sobre o eixo sintagmático, de grandezas idênticas ou comparáveis, situadas no mesmo nível de análise (Greimas, 1979). A isotopia semântica torna possível a leitura uniforme e a coerência textual. Embora a evolução de tais estudos tenha chegado a macro-classificações das isotopias, segundo o nível das estruturas do texto abordado, dividindo-as em temáticas e figurativas e outras, não se pretende na análise em tela utilizá-las exaustivamente, devido aos limites de tempo desta exposição.

Deste modo, na análise de Luanda Beira Bahia, várias isotopias serão estudadas, referindo-se à jindiba, ao mar e à viagem, à miscigenação, ao destino, ao duplo, ao triplo, à similaridade, ao incesto.

A isotopia temática é produto da repetição de unidades semânticas abstratas, em um mesmo percurso temático (a da similaridade, a do incesto) e a isotopia figurativa constituída da redundância de traços figurativos, pela seqüência de figuras similares (a da jindiba, a do mar, a do duplo, a do triplo). Por conseguinte, a análise das isotopias é descrita pela presença dos traços semânticos, abstratos e figurativos que se repetem ao longo do eixo sintagmático. Tenta-se garantir, assim, através do relacionamento das isotopias temáticas e figurativas, a coerência semântica de sentido, a fim de atender ao objetivo de apreender o texto como um todo de significação.

 

3.1 Isotopia da mítica jindiba, signo das origens da terra

 

            A jindiba, presença do reino vegetal sempre antropomorfizada, é emblema altamente conotado de simbologias. Subsume várias funções pertinentes ao homem, como se comprova, por exemplo, “a jindiba pareceu um homem. Corpo era o tronco com os braços secos abertos como cem braços” (p.7). Em outro trecho, o narrador diz “e se a jindiba viu quando o menino nasceu, também viu quando ele partiu (...) A jindiba espiava” ou ainda era: “uma pessoa, talvez mais sensível que uma pessoa, aquela árvore” (p.27). Em seguida, era “a jindiba mais curiosa que uma criatura humana, senhora de todos os segredos” (p.29). Neste fluxo de ir-e-vir da história, emergindo sempre em “flashes”, ao lado de tudo, testemunhando, embora sem voz, “a dez metros da casa”, a jindiba representa também uma parte dela (p.125). É a árvore ”alta e forte quando se fez a casa”, de origem ignorada, a princípio “simples muda em pedaço de bambu” (p.3) depois “imponente tão perto da praia, jamais se sabendo quem a plantou”.

            Muitas e muitas outras citações sobre aqueles galhos, impregnados de signos enlaçados à vida da terra e dos personagens, atravessam o texto com alusões personificadas sobre um vegetal concebido também como “uma árvore do tempo do paraíso. E tal comparação está bem explícita na fala da angolana Iuta, quase no final da narrativa (p.132). Corporifica, portanto, a jindiba a memória da vida e da morte dos seres ficcionais daquela extensão praiana. A árvore é raiz, apelo à origem, à permanência, como também, ao mesmo tempo, lembra “velas, com sua galharia aberta ao tremular do vento”, numa simbiose entre ela e o mar. É marco onisciente, que congrega presente, passado e futuro: “Ela, a jindiba, sabia que o menino não tardaria a empregar-se” (p.20). Representa um pertencimento, signo mítico do Pontal, ali sempre aparecendo como assistente e participante da trama.

            Junto à árvore, na casa mítica nasceu Caúla, o menino fruto da ligação da cabocla, Morena, praiana rendeira, com João Joanes, o Sardento, marinheiro de pele clara, cabelos louros e olhos azuis, índices do colonizador, que assumira o mar como destino, reavivando, na ficção de Adonias, os imponderáveis desígnios do “fatum”, dos latinos, ou da “moira”, dos gregos.

            Assim, a obra, em meio ao “pathos” trágico, se monta, entremeando planos narrativos, onde a jindiba e o mar funcionam como elementos axiais na composição textual.

 

3.2 A isotopia do mar

 

            Repleto de lendas, mistérios e “habitat” de tubarões, e através de seu fluxo animado – de resto, bem parecido com o próprio ir-e-vir das flutuações da própria construção desta narrativa – o mar “balança aquele mundo flutuante, sempre a alterar-se verdadeiro labirinto movediço” (p.62). Em seu perpétuo mover-se, ele se afirma como elemento da natureza, exercendo dupla ação em Luanda Beira Bahia: ao mesmo tempo, é veículo de comunicação e de atração sobre os homens e, em contrapartida, índice de desespero e de morte. Conotando forte apelo à liberdade, nele igualmente paira a fatalidade, conduzindo os personagens à tragédia, mas, ao mesmo tempo, fazendo com que oscile, em todo o romance, o lirismo romântico, salpicado dos sortilégios do coração.

            Aliás, estes dois componentes – quais sejam: o amor romântico e o “pathos” da tragédia ligados à presença marítima– encontram-se, com idêntica marca em muitos autores da liberatura universal e brasileira, inclusive em Mar morto, obra do também baiano Jorge Amado. Neste livro, Jorge Amado proclama que “Iemanjá rouba os homens às suas mulheres” e em outro trecho do mesmo romance enfatiza que:

 

Os homens da beira do cais só têm uma estrada: a estrada do mar. O mar é o dono de todos eles. Do mar vêm toda a alegria e toda a tristeza.(...) Destino deles é esse: virar o mar. (Mar morto. p.30).

 

            Tal apelo lendário e fatídico presentifica-se, com algumas analogias, na estruturação de Luanda Beira Bahia, apontando para a tenacidade que a vida no oceano propicia, pois “o mar ensina coragem” (p.61). A par disso, ele é também belo, incentiva o imaginário e faz dançar a fantasia dos que o afrontam e encharca de poesia os artistas em geral e a escrita de Adonias, conforme se lê: “Os olhos no mar, aquilo é bonito à noite, assim parado o porto, a brisa esfriando, luzes em todas as embarcações” (p.63). Esta beleza – fascinante e terrível, ao mesmo tempo, libertária e acorrentadora – encontra-se também em Mar morto de Jorge Amado:

 

O mar é belo, é terrível. O mar é livre, e livres são os que vivem nele. Mas Dulce bem sabia que não era assim, que aqueles homens e aquelas mulheres, aquelas crianças não eram livres, estavam acorrentadas ao mar, estavam presas como escravos e Dulce não sabia onde estavam as cadeias que os prendiam, onde estavam os grilhões dessa escravidão (Mar morto. p.61-62).

 

            Os dois autores, seduzidos pelo balanço amoroso das ondas e por sua força dantesca, narram histórias de homens, onde a ferocidade marinha destroça vidas e as mulheres têm medo de seus filhos serem também marinheiros e, conseqüentemente, o repelem, segundo diz o narrador de Luanda Beira Bahia:: “Era como se elas, as mulheres estivessem obrigadas a parir homens para o mar” (p.13). Tanto Mar morto, quanto Luanda Beira Bahia são romances de tragédia e de amor, como também de solidária amizade entre homens e mulheres, traços psicológicos pertinentes entre os saveiristas entre si e entre as pessoas que vivem à beira do mar.

            Deste modo, mais do que um simples topos, o mar emblematiza inúmeros outros caminhos. É força que imanta os personagens, os domina como condenados e os leva para o cumprimento dos seus destinos, inexoravelmente. “Só Deus é maior do que o mar (...) O destino estava no meio, já disse, e chamava e puxava como se houvesse um ímã, em Luanda.” (p.88), deixando para trás Maria do Mar, mulher que o amava, na Beira.

            Em Adonias, o pélago exerce, também, a função de sujeito operador de transformação. Caúla, de rapaz passa a se sentir homem pelo chamamento daquela massa líquida, abertura para o encontro de outras Terras & Gentes, trânsito ao diálogo entre culturas. Partilhando da instância do narrado, o oceano sinaliza para a ambivalência entre Eros, pulsão de vida, e Tânatos, pulsão de morte. É conjuntamente bendito e maldito, atração e repulsão, alfa e ômega, pois, sendo uma energia primacial da natureza, ele transita na esfera do sagrado primordial, ou seja, no sagrado, enquanto “sacer” fundamental, onde tudo coexiste com igual valor, sem os dualismos redutores dos conceitos do bem e do mal da ética civilizatória.

            Em eterna mutabilidade de formas e cores, o mar tanto é focalizado em seu aspecto eufórico ou disfórico – utilizando-se, aqui, a terminologia de Greimas – respectivamente visto como fonte de riqueza ou cemitério dos nautas, justamente por conter no âmago do seu reino o componente aglutinador do sagrado essencial. O lado maligno, disfórico daquelas ondas traiçoeiras emerge, por exemplo, na fala do personagem Morena – “O mar, filho, é ruim” (p.14), – pelo fato de ele haver levado para longe João Joanes, fulcro desencadeador da tragédia. Em contraponto, em outros momentos, o oceano torna-se plácido, amoroso e suas águas esplendem em beleza e terno convívio.

            Conjugando tantos aspectos, o “leitmotiv” do mar se entretece com o da viagem – freqüentíssimo na tradição literária não só do Ocidente – o périplo de Ulisses na Odisséia – como do Oriente – a história de Simbad, o marujo. Tem a função de conector de isotopia na medida em que é um lexema, uma palavra, que participa de várias isotopias e permeia a passagem de uma leitura a outra. Por conseguinte, a ficção de Adonias vai costurando os feitiços das náuticas travessias, apesar dos estigmas da dor escondidos em suas trilhas. Ao reavivar o lendário ancestral, intertextualizando lembranças – pessoais e literárias – o escritor traz à tona os perigos, a pirataria e as malvadezas no alto-oceano, bem como a energia inauguradora das míticas quiandas, as lindas sereias de Luanda, que, segundo as crendices das regiões de África, atraíam os homens. Com sua escrita agremiadora, o insigne escritor baiano dilui as fronteiras entre Terras & Gentes, configurando mestiçagens simbólicas e culturais nos portos da Bahia, Beira e Luanda.

 

3.3 Isotopia da Miscigenação

 

            As isotopias espaciais e temporais se interpenetram e montam um território escritural de denso diálogo entre culturas. Nele se lêem signos autóctones de baianidade e, por extensão, formadores dos alicerces da cultura brasileira, ao misturar índios, europeus e negros a signos alotóctones, ainda que estes últimos, de certa forma, já se tenham contaminado com outras civilizações.

            Dialogando também com os estereótipos românticos da colonização, ao realçar aspectos da terra virgem, em Luanda Beira Bahia, integram-se etnias, que convivem em pacífica coabitação. Excetuando Morena, cabocla, mistura do branco com índio, a maioria das mulheres e das gentes da história é oriunda, portanto, do branco com o preto. Vários cruzamentos étnicos podem-se exemplificar em meio àquela “gente curtida pelo sol”:

            Manuel Sete (um branco de Portugal, barba negra, cabelos nos ombros) + uma negra de luxo, pais de Corina Mulele.

            João Joanes (branco sardento, a cabelaça alourada, olhos azuis) + Morena (cabocla, filha de Ìndios) originaram Caúla, (moreno de caboclo) (p.69).

            Vicar (João Joanes, o sardento) + Corina Mulele geraram Iuta, como se lê na p.41, “mestiça, morena bem queimada. Mistura do sangue da mãe, já· mulata, com o sangue do pai, brasileiro muito branco de sardas na cara” (p.42).

            Conceição do Carmo: “mulatinha de olhos verdes, cabelos corridos”.

            Maria do Mar: “mestiça de pele macia e escura, corridos os cabelos que o sol acinzentara, olhos verdes de limo (...) ele não entendia porque tanto verde naqueles olhos” (p.107). “Fogo havia no verde dos olhos, chumbo na pele, corpo de tigre a saltar, os músculos tensos” (p.111).

            A raça negra é descrita, euforicamente, como pessoas dotadas de qualidades. Isto se observa, em vários passos narrativos. Um deles é quando a Professora Maria da Hora, que encarnava o conhecimento livresco, localiza a África do outro lado. As negras de Luanda são tão lindas que as quiandas, as sereias, estremecem de ciúme no fundo do mar” (p.40). Generosas são Joana Dé, amiga de Corina Mulele, íntegra como o carvão, alegria feita em risos” (p.48) e sua mãe Humba Dé, gorda e pesadona, disposta e animada, não se cansava nunca. Casa e comida não lhe faltaram até que Corina Mulele encontrasse um emprego” (p.48).

            Quanto à classe dos adjuvantes, para os personagens centrais sempre aparecem pessoas solidárias auxiliando-os, revelando, deste modo, a têmpera e o traço da cordialidade dos povos africanos, mesclados ao de origem portuguesa. Os oponentes representam-se pelo contrabandista Paulo Nuno que prepara uma armadilha para João Joanes, colocando diamantes na sua sacola, e a Mãe Filomena, cúmplice, traidora, aparentemente boa. “Negra, de riso aberto, amiga de todos os navegantes, senhora do Mercado” (p.58), mas, por outro lado, ardilosa e líder dos marinheiros e contrabandista.

            Adonias Filho construiu um texto em que o jogo do olhar sobre territórios distantes encaminha-se para a questão da fértil convivência entre a identidade e alteridade, ao aglutinar, de forma criativa, o acervo de crenças e histórias de localidades diversas, onde o mar é o marco-limite. Na pena do ficcionista, os personagens, no meio do caldeirão de raças e estilos, são igualmente valorizados, sem que se priorizem culturas ou etnias. Enfatizou, sobretudo, o problema da mestiçagem, sendo a África tematizada como o paraíso em que Adão e Eva se instalaram, dando origem a tudo.

            Tal é a força da miscigenação nos rumos da história que chega até a promover o incesto, embora inconsciente. Tendo o mar como esteira condutora, aflora, em fragmentados índices, a história daquele navegante, o Sardento João Joanes/Vicar que deixou nas Terras & Gentes da Bahia e Luanda, sua semente de vida e o rastro do incesto e, conseqüentemente, de morte.

 

3.4 A isotopia do incesto

 

            Etimologicamente incesto (do latim “in” = não + “castus” = casto, puro) significa impuro, manchado, obsceno. O termo refere-se a uma união ilícita entre parentes (por consangüinidade ou por afinidade) em grau proibido pelas leis, ou seja, en decorrência da linha direta do mesmo sangue até o segundo grau, inclusive de linha transversal. Representa uma relação sexual ou marital entre duas pessoas consideradas pela sociedade tão próximas que o casamento entre elas é interdito.

            Tal proibição, existente em quase todas as sociedades humanas, foi estudada por Murdock, em mais de 200 sociedades, constatando ele que nenhuma delas permitia o casamento entre pai e filha, irmão e irmã, mãe e filho. Pesquisaram o mesmo assunto Freud, no que tange ao complexo de Édipo, além de Burnett Tylor e Leslie White, que encontraram, como norma de convivência social, a apologia do casamento fora daqueles grupos.

            Em prosseguimento a tais pesquisas e a de Malinowski, Claude Lévi-Strauss, aplicando o estruturalismo à antropologia, ampliou o significado da proibição do incesto em linguagem, constituída de oposições e de relações entre seus elementos constitutivos: marido-mulher, pai-filho, tio-sobrinho, irmão-irmã.

            Há milênios, a questão do incesto vem sendo enfocada na literatura, sendo o texto mais expressivo o Edipo-Rei, de Sófocles, tabu que se espalhou na cultura do Ocidente, com outros tons e reelaborações, embora mantendo o estigma central da interdição arcaica. Com mestria, Adonias não se eximiu de recriá-lo, congeminando antigos motivos recorrentes a formas inovadoras de escrita. Misturou o tema do incesto à tradição épica do topos da errância nas travessias marítimas, aglutinando, no mesmo romance, o filão dramático dos signos do “pathos” decorrente do casamento entre familiares.

            Tematizam-se e estruturam-se, portanto, em Luanda Beira Bahia, diversas notações antigas, que se coroam na atmosfera sangrenta do amor não permitido entre dois irmãos: Caúla, o brasileiro, jovem marinheiro como o pai, e a mocinha angolana, Iuta, filha de Corina Mulele, resultado de amores bastardos do mesmo sardento João Joanes, conhecido, em terras africanas por Vicar.

            Em verdade, o incesto aí, ocorreu por desconhecimento da própria origem, fato que igualmente se deu entre Édipo e Jocasta. No drama de Sófocles, ambos inocentes caíram nas armadilhas da moira, do inexorável destino, segundo a anterior previsão do oráculo. No livro de Adonias, Caúla e Iuta ignoravam a sua paternidade, bem como as andanças donjuanescas de um pai marinheiro de longínquas lembranças. Porém, o amor – traiçoeiro e farsante – armou o laço, laço que, após desfeito o enigma da ascendência de ambos, levaria os dois jovens e o pai ao desfecho trágico. Ao tomar conhecimento das relações de seus filhos, João Joanes/Vicar extermina três gerações: os dois filhos, a criança no ventre de Iuta e ele próprio.

            Tal atitude assinala a passagem da natureza para a cultura, caracterizada pelo aparecimento das regras. O homem é um ser biológico, porém, inserido em uma sociedade, dotada de leis. A cultura estabelece as possibilidades da união através de ditames sociais, visando à exogamia. E isto está bem marcado nesta escrita. O que era bendito, nos inícios paradisíacos da trama, transforma-se em maldito. Agora é o império da cultura e a luta do homem debatendo-se diante de algo que o sobrepõe e contra o qual se sente inerme e falido.

 

3.5 A isotopia do destino

 

            Ao conhecer os romances de Adonias Filho, o leitor e o crítico logo questionam o tema dos limites da liberdade, analisado através de duas vertentes: a) se o homem é dono do traçado de sua vida pelo uso de seu livre arbítrio; b) ou, ao contrário, se ele é totalmente impotente diante da força do destino.

            Em Servos da morte e Memórias de Lázaro, dois outros romances de Adonias, os atores não conseguem reagir face à violência da fatalidade. Já em Corpo vivo, Cajango liberta-se da educação para a vingança decorrente da chacina de toda a sua família ao conhecer Malva – um sujeito operador de transformação – que, pelo amor, desvia o seu destino para uma vida de paz no alto da serra, onde plantaria cacau e encontraria o “ninho”.

            Em Luanda Beira Bahia, percorre o texto a isotopia temática e figurativa do destino, surgindo, em contraponto, traços pincelados também do livre-arbítrio. Aliás, este livro de Adonias marca-se, justamente, pela tensão entre estas duas forças, que também ponteiam a existência humana, tema tão discutido pelos filósofos. Os personagens representam títeres levados a agir dentro de uma hereditariedade direta (influência do pai) ou do avô, o chamado atavismo (do lat.”atavus” = avô).

            Em princípio, pela força da herança genética, João Joanes/Vicar e Caúla são induzidos a se lançar ao mar. Tais acontecimentos e ações ligam-se e determinam-se por desconhecidas ocorrências anteriores. Caúla, referindo-se a João Joanes, diz que nada sabia sobre o seu próprio pai, só que era marinheiro. “Sumiu nos portos, jamais regressou, perdeu-se no mar”. Iuta conclui: “o destino dos marinheiros” (p.120). Em outro trecho: “João Joanes se fora e o próprio filho não sabia para onde. Sabia que estava no mar, o alma de peixe, cumprindo o destino” (p.31). ”Nós somos levados! (...) Levados pelo destino, sem direito a qualquer escolha, um pouco de baleeira perdida no mar. Pequeninos demais, todos nós ! Ninguém escolhe mãe e pai, nem sexo, nem cor e raça, nada. Levados como se fôssemos peixes, o futuro sempre escuro, cegos para a sorte ou o azar” (p.104).

            Além da herança genética, o destino é configurado numa instância superior por Deus. As mulheres afirmam que ”Ninguém a não ser Deus evitaria que o filho fosse marinheiro” (p.18). Observa-se bem nesta fala a identificação do destino à entidade divina, como artífice da vida. Também o destino pode-se manifestar pela poder de imantação do mar, reino de Iemanjá, Sobre esta energia do fantástico mundo do sincretismo religioso baiano, Odorico Tavares, em Bahia, Imagens da terra e do povo, se expressa:

 

(...) há uma força maior do que o mar: há uma força que rege (...)que ordena, que manda, que decide sobre a vida dos pescadores (...) Todos lhe obedecem. Ninguém pode dizer que não é vassalo dos mais servis do grande reino de Iemanjá, (Tavares. 1951:70)

Uma mulher, mãe dos deuses, rainha poderosa dos mares, dispondo da sorte de todos, rezando a orquestra dos tempos, fazendo de uma cidade do mar, a Cidade do Salvador da Baía de Todos os Santos, a capital do seu grande reino. (Idem. p.80-1.)

 

            Sintetizando, portanto, na escrita de Adonias há freqüentes referências a três fontes manipuladoras do homem: a herança genética, Deus, numa instância superior e o mar, que no universo cultural da Bahia exerce enorme atração . “O mar, mais forte que a mulher e o filho, tinha de partir fosse para onde fosse. (...) O Sardento (...) era um condenado”.

            No entanto, em outros trechos do romance, revela-se a possibilidade de o homem ser estrategista da sua própria libertação. Eles, os homens do mar, “Desciam apressados e eram como presos que corressem para a liberdade” (p.41). Trata-se aqui, porém, de uma liberdade proporcionalmente restrita, pois, a cada um só caberá realizar, bem ou mal, as grandes linhas determinadas pelo destino. O peso do destino faz-se, então, sentir -se sobre a execução do ato fora da vontade de quem o produz. O destino seria, deste modo, o único princípio de todos os fatos e sucessos, embora o livre arbítrio também se coloque no aludido texto.

            Verticalizando tal questão, no clímax do conflito, o encontro de Caúla com Iuta e a gestação de um filho foram fatais, no sentido etimológico de “fatum”, que os arrastou ao final trágico, ocasião em que João Joanes/Vicar, assume o seu livre arbítrio e os extermina. Com isto, mostrou, que, apesar das determinações traçadas por uma força desconhecida, ele tomou posse da sua vida e. conseqüentemente, decretou a sua morte. Retorna a Ilhéus e, ao constatar que os dois filhos se uniram, liquida a falha incestuosa.

            Em tal momento, poderíamos questionar até que ponto ele cumpriu um destino pré-traçado para realizar o ato do extermínio ou, ao matar os filhos e a si próprio, assumiu seu livre arbítrio? Em síntese, o livro, numa instância bem mais profunda, articulando-se num nível metalingüístico – já que a literatura é uma reflexão sobre tudo o que constitui mistério para humanidade – talvez tangencie a grande interrogação: até onde vai a força do destino e a assunção do livre arbítrio nos atos humanos? Tal dúvida não circula explicitamente nesta efabulação, no entanto, por ser Adonias Filho um arqueólogo da alma humana, faculta a nós, críticos-leitores, este encaminhamento, pois a grande obra é, sem dúvida, aquela que suscita questões fundamentais sobre o Homem em seu estar-no-mundo.

            Reaviva-se, assim, nas claves da escrita moderna de Adonias–similar a uma ressonância dos trágicos antigos – os impasses e ações dos heróis gregos, que, embora indo às últimas conseqüências de seus atos, são, finalmente, enlaçados pelas astúcias que a “moira” urdiu. De fato, o ator João Joanes/Vicar ainda pôde – embora em menor escala, é certo, através do livre arbítrio – determinar e escolher a sua morte, levado pelas tramas labirínticas que a vida lhe impôs. Todavia, percebe-se que o destino foi o grande vencedor, já que o mar, do começo ao fim do romance, exerce a função de emissor ou destinador, na medida em que determina a missão ao sujeito –representado no texto por João Joanes/Vicar, Caúla e os marinheiros em geral – de se lançarem ao pélago desconhecido.

 

3.6 Isotopia do duplo:

 

            Em Luanda Beira Bahia, a isotopia do duplo se impõe como um espelhamento, um jogo, em inúmeros aspectos da narrativa. A ação se passa em dois continentes: América e África. No Brasil, em duas cidades: em Ilhéus e em Salvador; no outro continente, na Beira e em Luanda, cidades que se encontram à beira de dois Oceanos: o Atlântico e o Índico. O procedimento do duplo encontra-se, igualmente, na tragédia Édipo-Rei: duas cidades, dois pares de pais, os verdadeiros e os adotivos, Édipo tivera dois filhos e duas filhas, etc.

            Na ficção em estudo, o espelhamento dual é obsessivo, Há dois protagonistas: João Joanes e Caúla, seu filho. Também João Joanes possui duas identidades, pois em Luanda, assume o nome de Vicar. Além disso, em seu próprio onomástico – qual seja, João Joanes – o lexema João se duplica obliquamente em Joanes, como se Adonias o compusesse a partir do mesmo radical. Sem dúvida, um criativo artifício, visando, talvez, a recuperar – ainda que inconscientemente e de forma imperfeita – as possibilidades remotas das declinações latinas.

            O segundo elemento do sintagma, Joanes, lembra-nos o genitivo latino de uma terceira declinação, que, embora terminada em -is, grafou-se, no nome, com o final -es, cuja pronúncia, na oralidade, torna-se idêntica à desinência latina. Tal possível relação com o genitivo latino, configurador de posse ou filiação – João, filho de João – sugere a eventual leitura de que o nosso personagem emblematiza o nome e o destino marinheiro do pai. E isto é mais um índice a abrir-se para ratificar a tese de que o destino nesta obra provém de uma herança genética.

            A duplicidade se comprova em outros personagens como em Fabrício Beato, registrado com dois nomes próprios e traz em si, coligadas duas forças antagônicas: Deus e o diabo observação que se completa na fala de João Joanes: “É dentro de nós, em cada homem, que (tais forças) disputam vitória” (p.66).

            Há paralelismos nas tramas, que, no entanto se invertem, complementando-se, ora em relações permitidas: João Joanes + Morena e Vicar + Corina Mulele, ora em relações proibidas: Caúla e Iuta.

            Morto o pai, João Joanes vai para o mar. Morta a mãe, similarmente, Caúla também torna-se marinheiro. João Joanes não retorna do mar e Morena, sua mulher, morre . Ao viajar pede ao amigo Pé-de-Vento que tomasse conta dela e do filho, Caúla. Vicar, paralelamente, não retorna do mar e sua mulher, Corina Mulele, morre, igual à Morena. José Babino, salvo por Vicar, torna-se cão de guarda de Iuta. Já por tais índices, observa-se que as ações são reflexas. De fato, o que acontece em Ilhéus repete-se na África. Além destes marcos, aludidos, João Joanes conta com adjuvantes; e Caúla, por sua vez, encontra pessoas que o ajudaram: Mestre Vitorino, o Baixinho, Gando, Rosário.

            Na rotas tanto de João Joanes, quanto na de Caúla, verificam-se desvios. O primeiro, em vez de ir para Nova Iorque teve de pegar outro cargueiro em direção a Luanda para fugir dos contrabandistas. O segundo vai igualmente para Luanda, para livrar-se da decepção com Conceição do Carmo, o amor-paixão. A sua odisséia marítima foi diferente da de Telêmaco, filho de Ulisses e de Penélope, que, na obra, de Homero, saiu em busca do pai, rei de Itaca, o qual partira para o cerco de Tróia.

            Há também a isotopia do duplo no nível das relações familiares. Com a união de Caúla com Iuta, ele, que já era irmão, possui a função de esposo. Iuta, também tem o duplo papel: irmã e esposa. João Joanes/Vicar é simultaneamente pai e sogro dos dois.

Há um espelhamento nos “flashes-back” da 1a parte com os que ocorrem na 2a parte.

 

1a parte:

 

Flash-back: Caúla com 2 anos

Flash-back mais anterior: Os pais se conhecem, em Olivença

2a parte:

Flash-back Iuta recorda a narração de Corina Mulele sobre seus pais

Flash-back mais recente: Encontro de Corina Mulele com Vicar

 

            Quanto ao espaço urbanístico, Luanda reproduz o traçado de Salvador: o Mercado, a Cidade alta e Cidade baixa, a forma de anfiteatro.

A isotopia do duplo revela a identidade cultural existente nos povos brasileiro e africanos de língua portuguesa na instância do universo afetivo.

            Desdobrando a figura lendária de Penélope, a fidelidade no amor encontra-se nas personagens Morena e Corina Mulele. A primeira aguardou João Joanes dez anos, indo freqüentemente procurar suas notícias no porto de Ilhéus e acabou morrendo de coração; a segunda, em Luanda,preservava nos olhos a esperança de Vicar retornar e acabou, pele e ossos, sucumbindo.

            A fidelidade na amizade, duplamente, é ilustrada por Pé-de-Vento que, a pedido de João Joanes, cuidou de Morena e de Caúla, arranjando-lhe emprego e, até no final do romance, o amigo cortou a jindiba para da árvore fazer os esquifes para João Joanes, Caúla e Iuta; analogamente, José Babino, salvo das águas por Vicar, esteve sempre junto de Iuta até ele morrer.

            A solidariedade humana manifestam-se em todos os personagens secundários, em águas e terras brasileiras e africanas. Mestre Vitorino, representando o papel de um pai, preparou Caúla para viagens mais longas, o Baixinho o incentivou a esquecer Conceição do Carmo e ir para longínquas plagas, Gando previne João Joanes da cilada da ida para Luanda e o salva, passando-o, na Ilha de São Tomé para outro barco e levando-o para Beira onde Rosário o apresenta a Maria do Mar. Joana Dê apenas conheceu Corina Mulele na viagem do Interior para Luanda, a acolhe com sua mãe Humba Dê, dando-lhe casa e comida até que ela arranjasse um emprego. o que acabou ela própria, Humba Dê, conseguindo-o no Clube dos Caçadores.

            Personagens com maus predicados também aparecem em dupla. É o Paulo Nuno, contrabandista que coloca diamantes na sacola de João Joanes, pivô disfórico de toda a história, e Mãe Filomena, falsa, colaboradora dos contrabandistas.

            Há uma tragédia no mar, na Beira onde os tubarões brancos devoram os pais de Maria do Mar e igualmente uma tragédia na terra, em Ilhéus, quando João Joanes/Vicar mata os filhos e a si próprio. De novo o espelhamento, o romance se duplicando numa estrutura em abismo, como se tudo se contemplasse e dualisticamente imbricasse de forma espiralante, ainda que articulada em radical instância narrativa.

            No final, os dois elementos da Natureza: a jindiba e o mar, marcos na vida dos protagonistas, o foram também na morte.

 

3.7 A isotopia do três:

 

            O número três – de conotação mítico-simbólica ligada a horizontes cosmológicos, a lendas arcaicas e ao universo do sagrado primordial –permeia a obra e já se instala a partir do próprio título Luanda Beira Bahia, três topônimos expressivos. Convém, no entanto, ressaltar que a isotopia do três, atravessando o romance, abriga também, dentro dela, a isotopia do duplo, como se constata, por exemplo, através do lexema Bahia que subsume Ilhéus e Salvador, além de o duplo ser igualmente uma isotopia relevante na estruturação da história. Múltiplas são, pois, as marcas do número três no evolver narrativo, congregando ao mesmo tempo aspectos diversos.

            O lexema “três” encontra-se, por exemplo, em: “Homem de levar três dias e três noites sobre as ondas” (p.21); ”o Pontal com três choupanas” (p.3); “os seis (múltiplo de três) anos que ali esteve com as mãos na cola e no couro, aprendendo a consertar, passaram muito depressa.” (p.24); “três dias naquela travessia, o mar manso, estrelas de muita luz mostrando o rumo” (p.33); “na terceira noite – que Salvador se mostraria com a madrugada” (p.34); “O leopardo matou uma mulher e três meninos.” (p.45); “Três armas contavam a fome do leopardo, o rifle e a lança de ferro” (p.46) “E, com três semanas deixei a casa de Humba Dé” (p.50); “três homens já o cercam. (...) os homens são três” (p.64); “os três na barraca” (p.94); “Saíram os três, o pai, a mãe e Maria. (...) sempre saíam os três” (p.110); “tinham três meses, chorava, Maria” (p.111); “José Babino abriu a porta três noites depois, para que Caúla entrasse na barraca pela primeira vez” (p.122); ”Três meses ali estava, João Joanes, a pescar com Pé-de-Vento” (p.133).

            De fato, há uma exagerada isotopia figurativa do número três. Outros exemplos, ainda se coletam, tais como: Caúla conhece três mulheres: Conceição do Carmo, Maria do Mar e Iuta, a terceira com quem teve relacionamento afetivo efetivo, a mais importante, a irmã, parte fundamental na composição do clímax da trama. Igualmente do ponto de vista estilístico, a prosa poemática de Adonias Filho, com sua dicção lírica, conserva, em grande parte, um ritmo ternário, conforme se assinala em: “A mulher esperava, o filho esperava, a árvore esperava”(p.15); ”(...) o mesmo tombadilho, o mesmo corredor, os mesmos homens” (p.103); “Lembrou-se da mãe, da moça do circo, de Conceição do Carmo” (p.108); “Caúla. Era o homem, o amor e a vida” (p.129); ”A barcaça, com as três velas abertas, cortava água (...) Três velas abertas, a barcaça, pequena viagem”(p.131).

            No final, com a tragédia, João Joanes/Vicar, ao exterminar Iuta grávida, Caúla a si próprio, são três gerações num só momento que se acabam e a isotopia do três chega ao clímax, daquelas vidas que se cruzaram com tanta similaridade de situações em histórias paralelas.

 

 

3.8 A isotopia da similaridade

 

            As tramas apresentam semelhanças na sua construção, com peças que se vão montando, para configurar um painel de identidades entre culturas e personagens. O jogo de similaridades não se restringe tão-somente ao povo, às ruas e às cidades de Salvador, de Beira e de Luanda, parecidas em seus traçados, ambiência cultural e sentimentos, mas também se dá a ler nos gestos, rostos e temperamentos entre Caúla, Iuta e João Joanes/Vicar.

            No desenrolar do narrado, presentifica-se uma reduplicação de fatos e faces. Caúla, segundo o pensar de Iuta “era igual a ela mesma. Irmãos, se o fossem, não seriam tão parecidos. Um jeito semelhante quando movia o rosto ou revelava curiosidade, ainda quando sorria. Sentia-se nele, pois, como em si própria (...) gostavam das mesmas coisas” (p 119-120). Também “e tanto Iuta como ele (Vicar) se parecia com aquele Caúla, o pequeno marinheiro, vindo do outro lado do mundo” (p.122).

            A interlocução entre culturas é tão grande, que Adonias Filho, quando esteve na África tudo documentou sobre Beira e Luanda. Recolheu lexemas, topônimos e substantivos comuns africanos e, adequadamente, os introduziu na estrutura da obra, como se fosse uma continuação, sem choque e estranhamentos, entre aqueles territórios, distantes e, paradoxalmente, tão próximos do universo baiano. Em meio à ficção, lá figurarm, vários topônimos de além-mar e, entre eles, Andulo, Mavinga, Mussende, Maianga, Ambaça, Quicombo, Benguela, Bailundo, Quibala. Aparecem na escrita de Luanda Beira Bahia, os substantivos comuns: Malufo (bebida fermentada muito apreciada pelos africanos), bendo (planta hortense da Índia), jogo (guisado preparado pelos indígenas de SãoTomé), cacimbo (sereno, relento, nevoeiro), os puitas (cuícas), quibombo (árvore de Angola), um quimbanda (adivinho ou médico, em Angola), além de outros termos não encontrados em dicionários brasileiros, mas que testemunham a fértil convivência entre Terras & Gentes.

 

4. Conclusão

 

            Após leituras e releituras de Luanda Beira Bahia, verifica-se que, por questões de sonoridade e para assinalar a isotopia do duplo (a repetição da bilabial b) – uma das pistas para descrição do texto, inserida na do número três – o título da obra encerra o itinerário invertido do personagem. De fato, o protagonista Caúla empreende uma viagem da Bahia a Beira e a Luanda e, de volta, de Luanda à Bahia, sem passar pela Beira. Diverso, portanto, do trajeto de seu pai. Contata-se aí uma inversão complementadora.

            Quanto à hipótese de base para interpretar esta obra, escudada no conceito de isotopia já esboçado na introdução e confirmada no corpo desta análise, todas elas tiveram exaustiva comprovação, tendo em vista a quantidade dos exemplos elencados, extraídos do romance. Este também apresentou, uma curiosa equação de igualdade: O título é o sentido condensado do corpo do texto, assim como o corpo do texto configura o título em expansão, tese que pode ser estendida a outros gêneros literários.

            O espaço da “back-story” nesta composição – escrito, com sabor de inauguralidade na linha mítica dos tempos pretéritos do narrador oral – inscreve-se no tempo do “sacer” fundamental, portanto, sem os reducionismos maniqueístas civilizatórios. No entanto, no desenrolar propriamente da vida dos personagens, a cultura se impôs, esfumaçando o caráter mítico-simbólico com que a obra se abria. Entretanto, o mito, enquanto fala originária, a gravitar também no inconsciente coletivo, permanece latente no evolver de todo o relato, já que o apelo do mar, com sua ambivalência de bendição e maldição, explícita ou subentendida, extravasa pelas frestas da história.

Mas é lá também, no âmago da trama, que as leis da hereditariedade (influência direta dos pais) e do atavismo (influência dos avós) fazem com que João Joanes e Caúla se sintam cooptados pelo mar para exercerem a profissão de marinheiros.

O tema nuclear de Luanda Beira Bahia focaliza o homem a construir sua existência em tensão com o mundo, tentando modificar o que lhe fora traçado pelo destino. Situa-se entre a predestinação, a fatalidade e o livre-arbítrio, sua liberdade de agir com a finalidade de, através do gesto trágico de matar os filhos e a si próprio, acionar a proibição do incesto. Irresponsavelmente gerou vidas e conscientemente gerou a morte, assumindo a sua culpabilidade. A função desta interferência é “assegurar a circulação das mu­lheres na sociedade, como meio de permitir a miscigenação que abre e renova a etnia” (Lepargneur, H. 1942:42). Vê-se aí o determinismo metafísico, força que conduz o homem, acima da sua vontade, ser identificado como o destino ou simplesmente ficar preso à vontade dos deuses, como se constata na mundivisão grega da trama de Édipo-Rei.

            Outro aspecto importante de Luanda Beira Bahia, sem dúvida, é o do sincretismo religioso: “Flores ofereciam a Nossa Senhora dos Navegantes quando suplicavam, com as cabeças baixas, que lhes poupassem os filhos. E flores levavam a Iemanjá para que os esquecesse e não os seduzisse porque também a terra necessitava de homens” (p.5-16). O romance ilustra, portanto, a equivalência das raças, a idêntica sensibilidade entre nações, bem como a cordialidade e a fidelidade dos generosos aportes entre os povos lusófonos brasileiro e africanos.

            Adonias Filho dosou, com raro engenho e arte, vários filões temático-estruturais, em que também o trágico, o lírico e o épico se reúnem numa narrativa de timbres modernos. Nela não falta, num dialogismo de tempos e espaços, o jogo da permanência e da mutabilidade, linhas inerentes à história do Ser, de que já falaram os filósofos Heráclito e Parmênides. Assim, numa leitura bem mais aprofundada, que atinja os fundamentos da humanidade, o que está em discussão em Luanda Beira Bahia, a par de suas marcas contextuais explicitadas, é a própria condição do Homem como ser-no-mundo, ao tentar fugir das ciladas da fatalidade. Apesar do seu ilusório livre arbítrio, por fim, Ele, o Homem de todas as épocas – como ocorreu com os personagens desta saga familiar de Adonias Filho – é, impiedosamente, tragado pela força do destino.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

ADONIAS FILHO. Luanda Beira Bahia, Rio, Civilização Brasileira, 1971

_____. O romance brasileiro de 30. Rio, Bloch, 1969: 12

ALVES, CASTRO. Navio negreiro. Tragédia no mar. Salvador, UFBA, 1979: 8

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_____. In: DRAEGGER, Alain & AMADO, Jorge. Terra mágica da Bahia. Banco Francês e Brasileiro, 1989: 8.

LEPARGNEUR, H. Introdução aos estruturalismos. São Paulo, Herder, 1976: 42

LEVI-STRAUSS. Tristes tropiques. Paris, Plon, 1963

TAVARES, Odorico. Bahia. Imagens da terra e do povo. Rio, José Olympio, 1951: 70